Sendo uma referência da doçaria tradicional dos Açores, alguns doces como as saborosas Queijadas da Vila, as Queijadas da Graciosa ou os afamados Bolos Lêvedos foram certificados pelo Centro Regional de Apoio ao Artesanato (CRAA) como Produto Artesanal. O objeivo é a valorização e desenvolvimento do que melhor se faz no arquipélago.

A verdade é que, para além de serem cada vez mais valorizados quer pelos locais, quer pelos turistas, estes doces revelam aquela que é a história das próprias gentes açorianas, tendo a sua origem em crenças e tradições que valem a pena contar.

Foi exatamente para manter viva a doçaria tradicional e suas memórias que o Centro Regional de Apoio ao Artesanato decidiu certificar oito doces tradicionais como produto artesanal, preservando a sua identidade e «saber fazer».

A Massa Sovada, comum em todas as ilhas do arquipélago, é uma espécie de pão doce, desde sempre associado às Festas do Espírito Santo, que ficou conhecido como o Bolo das Festas do Espírito Santo.

De acordo com a obra Produtos Tradicionais Portugueses – Vol. 3, o bolo de Massa Sovada pode ainda ser designado por «brindeira» quando se destina a servir de oferta, ou de «folar» quando confecionado na Páscoa.

No essencial, este típico pão doce açoriano é feito com farinha, ovos, manteiga e açúcar, sendo tradicionalmente cozido em forno de lenha depois da massa levedar.

O seu nome advém do facto desta massa ter de ser sovada, ou seja, bem amassada.

Apesar de se poder encontrar este doce em todas as ilhas, sabe-se, no entanto, que a sua receita está sujeita a algumas variações consoante as ilhas, podendo ser mais ou menos condimentada.

A massa sovada é, habitualmente, servida como sobremesa ou como acompanhamento a algum prato típico da região.

As Donas Amélias tradicionais da ilha Terceira são também um dos oito doces que ganharam esta certificação.

A sua história é contada no diário da Rainha Dona Amélia que, aquando a sua primeira visita à ilha, terá recebido dos seus habitantes uns deliciosos bolinhos como prova do seu apreço.  

Diz-se, aliás, que quando Dona Amélia perguntou como se chamavam estes doces, prontamente terão respondido que podiam chamar-se Donas Amélias em sua homenagem.

Estes bolinhos são confecionados em forma de queijada e terão sido inspirados num outro bolo mais antigo feito com especiarias.

Da ilha Terceira e Graciosa chega também o Alfenim. Um doce medieval de origem árabe que consiste numa massa de açúcar, branca e seca, que ainda hoje faz parte da doçaria tradicional das ilhas centrais do arquipélago, em particular da ilha Terceira.

De acordo com a literatura, este doce terá chegado aos Açores durante o século XV com os mouriscos que ali se fixaram, aproveitando a produção de cana de açúcar da região.

Tendo sido, mais tarde, incorporado na doçaria conventual, mandava a tradição que fosse oferecido como presente de luxo a pessoas distintas e usado como decoração nos casamentos, enfeitando a mesas.

Durante as Festas do Espírito Santo – tradição da qual também faz parte – é confecionado de modo a replicar partes do corpo humano, habitualmente “oferecidos” ao santo invocado como forma de agradecimento por algum milagre obtido.

A São Brás quando as doenças acometem a garganta e a Santo Amaro quando a maleita atinge pernas e braços.

O Alfenim, na Ilha Terceira, quando é oferecido ao Divino Espírito Santo fica no Império até ser arrematado por uma pessoa com facilidade em arrecadar fundos para a Irmandade.

Remetendo também para a doçaria conventual portuguesa, as Queijadas da Graciosa  são um doce regional bem conhecido em todo o arquipélago, embora seja típicas como o nome indica da Ilha Graciosa.

São confecionadas em forma de estrela e a massa exterior apresenta-se fina e estaladiça acolhendo um recheio de ovos e leite de fazer crescer água na boca.

Durante muitos anos este doce foi exclusivo dos lares da Graciosa, sendo então conhecido por “covilhete de leite”. Era ainda de presença obrigatória em todas as festas e reuniões familiares na ilha.

Atualmente, apenas se produzem na freguesia de São Mateus, em Vila da Praia, pelo que também são conhecidas como Queijadas da Praia.

As Queijadas da Vila, doce típico de São Miguel, tiveram origem no Convento de Santo André, edificado em 1533, tendo-lhes sido ainda atribuída a distinção enquanto o primeiro doce dos Açores da 1ª Regra de Santa Clara.

Estas queijadas macias, suculentas e doces, apresentam como ingredientes principais o leite, os ovos e o açúcar, sendo atualmente um produto emblemárico do concelho de Vila Franca do Campo.

São também desta ilha os afamados Bolos Lêvedos, uma especialidade gastronómica típica e exclusiva do Vale das Furnas, que se destacam por serem leves e saborosos podendo acompanhar qualquer refeição.

Terão sido a base da alimentação dos primeiros habitantes da ilha e são hoje uma das principais referências gastronómicas da região.

Os bolos lêvedos apesar de serem designados por bolo são, na realidade, uma espécie de pão doce normalmente cozinho numa sertã de barro ou em chapa metálica polvilhada com farinha.

Já as Espécies, de São Jorge, destacam-se pelo sabor a canela, erva-doce e pimenta. E, embora existam várias versões deste doce em forma de ferradura, estes são os três ingredientes principais e comuns a todas.

Presume-se que a origem da sua receita remonta ao inicio do povoamento desta ilha.

Também associados às festas do Espírito Santo, Natal e outras festividades, surgem os Biscoitos de Orelha. Doce certificado como Produto Artesanal típico da ilha de Santa Maria.

Moldados pelas mãos afetuosas da mulheres marienses, devem o seu nome ao formato e ao corte feito nas ponta do triângulo que o forma.

Estes biscoitos tradicionais feitos a partir de uma massa lêveda de açúcar, farinha de trigo, ovos, banha de porco e manteiga, eram presença habitual nos lares marienses, nas ocasições festivas como a matança do porco ou casamentos. No Natal, mandava a tradição que os padrinhos oferecessem aos seus afilhados um biscoito de orelha que, embora mantivesse o seu formato habitual, era substancialmente maior.

De acordo com o preceito da receita, após a cozedura são colocado ao alto nos tabuleiros para irem ao forno secar. Diz-se que este processo se chama “abiscoitar”.

 

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