A história do Bordado dos Açores é indissociável da identidade do povo açoriano, marcada pelo culto ao Espírito Santo. Estima-se que terá sido no século XVIII que esta arte ganhou o folêgo de industria artesanal. E, ainda hoje, o que se entende por Bordado dos Açores encontra-se dividido em Bordado de São Miguel, Bordado da Terceira e Bordado a Palha de Trigo.

Situado no meio do oceano Atlântico, o arquipélago dos Açores foi, durante séculos, o ponto de paragem de diversas rotas marítimas, onde abundava uma multiplicidade de hábitos e costumes que viriam a influenciar a expressão artística dos artesãos locais. Terá sido, aliás, o resultado do cruzamento desta interculturalidade que imprimiu aos próprios bordados características tão específicas e que, ainda hoje, os tornam únicos no mundo.

Por outro lado, devemos ainda considerar que a própria origem vulcância dos Açores marcou não só a sua paisagem ou geografia humana, como o carácter dos açorianos, cuja religiosidade estava assente no facto de se encontrarem sob a constante ameaça de tremores de terra, terramotos ou erupções vulcânicas inesperadas.

Absorvendo e sedimentando, deste modo, o sentido da sua identidade cultural no culto religioso, as festas religiosas em homenagem ao Senhor Santo Cristo passaram a ser parte integrante da vida dos açorianos, influenciando, entre outras formas de expressão artística, a arte de bordar.

Do mesmo modo que várias técnicas e diferentes materiais eram aplicados no embelezamento da imagem do Santo Padroeiro, também os bordados lhe seguiram o exemplo, exaltando e exibindo assim a crença religiosa no Senhor Santo Cristo.

No entanto, para além da utilização de elementos valiosos, como as jóias, era possível ainda encontrar trabalhos bordados em tule com o mais pobre dos materiais encontrados na região: a palha.

Os bordados eram, habitualmente, produzidos com toda a delicadeza e paciência por mulheres, muitas vezes, dentro de instituições religiosas ou em famílias em que predominava o modelo patriacal.

Mais tarde, influenciado pela Bella Époque (período de cultura cosmopolita que se assinala no final do século XIX), o bordado dos Açores conhece uma nova era e ganha novo fôlego. Durante  este  período, com o aumento da procura, surgem as primeiras bordadeiras, mulheres que recebiam encomendas ou trabalhavam nas casas de senhores abastados.

As primeiras fábricas de bordados manuais que ficariam conhecidas como  “Casa dos Bordados”, nascem no início do século seguinte,  e esta arte tão tradicional conquista o mercado inglês, francês e americano.

A aplicação dos bordados no traje civil sofreu, ao longo de todo este processo, a influência do que era moda no continente. A roupa tradicionalmente branca ou crua refletia valores com dignidade e serenidade, limpeza e higiene, quer se tratasse de roupa de cama ou de mesa.

O bordado a matiz,  o bordado a branco ou o bordado a palha de trigo, que resultava na produção de peças de grande requinte, como vestidos de cerimónia, véus ou mantilhas constituem até hoje o que se designa como bordado dos Açores.

Tradicional da Ilha de São Miguel, o bordado a matiz remonta à década de 30 do século XX, e carateriza-se pelos motivos florais assimétricos (como os trevos, avencas, cravinas, ramos e algumas aves) inspirados na decoração da faiança oriental,  utilizando apenas dois tons de azul.  

Os pontos usados são o matiz, enquanto ponto principal, o ponto pé de flor e o de recorte, enquanto pontos acessórios.

Da ilha Terceira chega o bordado a branco (ou Bordado da Terceira, como é também conhecido). Uma variedade do bordado inglês que, dada a combinação de pontos empregues, terá recebido várias influências do século XIX.

Este bordado é caracterizado pela sua execução a branco sobre cambraia, algodão ou linho e pela representação de motivos florais mais clássicos e eruditos, geométricos ou figurativos. O ponto principal é o richelieu.

O Bordado a Palha de Trigo, característico da ilha do Faial, é dos três o mais original. Não tanto pela escolha do tecido (filo ou tule) mas pela utilização de um fio vegetal, cortado em tiras finas, em vez de linha.

De acordo com os registo da época, este tipo de bordado terá prosperado por volta de 1939 sendo que as suas matérias-primas eram facéis de encontrar.

Véus, estolas, mantilhas, vestidos de cerimónia e outras peças de grande requinte resultavam da utilização desta técnica que, se diz, ter chegado à ilha, em 1850, pela mão de uma imigrante inglesa que usava um chapéu de seda preto bordado a palha proveniente de França.

Os motivos deste bordado recaiem sobre a fauna e a flora da região, como é o caso das espigas, cachos de uvas e pequenas flores.

Apesar de um período de franca expansão, exportando para os Estados Unidos e Europa, o bordado a palha de trigo assiste ao declínio da sua produção. A partir da década de 50 com a falta de matéria prima (o tule passou a ser de nylon) a produção deste produto passou a ser feita por apenas duas ou três bordadeiras que aprenderam a aplicar esta técnica com os seus familiares e que a continuaram a passar a alguns interessados.

Desde 1998 que existe um selo de certificação para os bordados típicos destas três ilhas, criado pelo Governo regional para assegurar a qualidade e promover o requinte de um produto de elevado valor histórico e cultural.

Ilha: 
São Miguel
Terceira
Faial
Categoria: 
Artesanato
ArtesanatoRendas e Bordados
Fonte foto: 
Centro Regional de Apoio ao Artesanato