Decorria o final do século dezasseis e os Açores eram assolados por invasões de corsários, a maioria argelinos, seguidores da fé de Maomé.

Por essa altura o Governador do Castelo da cidade de Angra, na ilha Terceira, internara as suas duas filhas no Mosteiro de Santo André, em Vila Franca, não para serem freiras, mas para receberem a educação primorosa ministrada por religiosas virtuosas e sabedoras, como era Soror Maria de S. Boaventura.

As duas meninas eram muito belas, delicadas, simples, mas distintas e já tinham deixado muitos corações apaixonados. Estavam quase a voltar para a Terceira e, numa certa noite, a filha mais nova do governador teve um sonho aterrador em que via a nau que as levava ser abordada por um navio de corsários, ficando ela e a irmã escravas dos infiéis. Soror Boaventura, que tinha dons de profecia, descansou a jovem, dizendo-lhe que Nossa Senhora as acompanharia sãs e salvas até o castelo em Angra. Acrescentou ainda que os corsários iriam atacar não a nau, mas Vila Franca e que a terra havia de ser salva por intercessão de Nossa Senhora da Vitória.

No último domingo que as duas meninas passavam no convento vilafranquense houve festa religiosa. As duas irmãs assistiram à celebração e foram vistas por dois argelinos, que tinham desembarcado e se tinham misturado com os populares para observarem a vida do burgo.

Os dois irmãos, Sali e Ibraim, descendentes de uma nobre tribo da Mauritânia, tinham-se tornado corsários para vingarem a morte do pai pelos cristãos. Conheciam bem a língua portuguesa, eram usados em missões de espionagem e ardiam de ódio contra os cristãos. Mas ao verem as duas bonitas jovens seguir alinhadas até à igreja, o seu coração abriu-se ao amor. Depois voltaram para bordo. Foi planeado e marcado o ataque a Vila Franca para uma noite próxima, mas Sali e Ibraim já não pensavam em riquezas, nem em vingar-se dos cristãos. Só sonhavam com o momento de encontrar de novo as duas jovens.

Poucos dias depois, a altas horas da noite, enquanto a população da Vila dormia indefesa, os corsários desembarcaram na praia de Corpo-Santo e atacaram. O povo fugiu para o interior, as freiras abandonaram o convento com as suas educandas. Os mauritanos roubaram, devastaram e, enquanto isso, Sali e Ibraim só se preocupavam em encontrar as duas irmãs. Quando souberam que as duas jovens tinham embarcado numa caravela para a Terceira, ficaram desesperados e lançaram-se então a roubar.

Cansados de tanto destruir, os argelinos iam retirar-se para bordo, quando, inesperadamente, se viram cercados pela população que, enraivecida, tinha descido à Vila.

O combate foi medonho e a carnificina que os locais fizeram nos piratas foi tanta que uma ribeira de sangue correu pela rua.

Ali morreram Sali e Ibraim e poucos corsários sobreviventes puderam voltar às naus porque o mar, como que tomando o partido dos vilafranquenses, levantou-se em altas ondas.

As pessoas gritavam “Vitória! Vitória!” e corriam alegremente pela rua a que passaram a chamar Rua da Vitória. Fizeram a promessa de construir uma ermida a Nossa Senhora e mesmo ali levantaram uma construção simples. Hoje já não existe porque foi demolida, mas resta a inscrição gravada numa pedra, no cimo de uma porta onde outrora se erguia o pequeno templo.

Ilha: 
São Miguel
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Fonte texto: 
Açores: Lendas e outras histórias - FURTADO-BRUM
Ângela